segunda-feira, 18 de julho de 2011
Palavras Brancas
Tornou-se difícil diluir em palavras os sonhos. No fundo é isso o que me dói um pouco. Não viver provoca dor. Morrer é outra coisa. E não há porque sofrer por não ser uma coisa ou por sê-la. Apesar de tudo escrevo palavras brancas, até sentir sobre os ombros um peso leve, os cabelos e algumas mãos. A tortura de uma mulher forte é maior que a de um doente, cuja profundidade é impossível de avaliar. É certo que lhe aconteça coisas que vem de fora. E não é só vida que corre em seu corpo. É palavras prenhes flamejantes, sustentadas em carne e sangue. Meus versos já nascem com fome.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Interrogação
Demorei a dormir noite passada, meu ventre revirava, minha criazinha parecia que queria me dizer alguma coisa. O médico disse que o caroço já chupa dedo. 'Ser mãe é muito bom para o poeta inocente, mas ele, se quiser, que experimente'. Não sei definir, não sei traçar os limites das coisas. Roma: é amor, lido do fim para o princípio. E ser mãe para uma pessoa que nunca pensou em ser é o quê?
Hoje o dia foi daqueles! Acordei cedo, e com a bolsa em baixo do braço, lá vai eu ladeira acima, conversando sozinha em voz alta, sobre: Domínio Amazônico, Mares de Morros, Pradarias, Araucárias, Faixas de Transição, Cerrado e Caatinga. Cheguei! Os meus 53 alunos me esperavam, acho que foi o sol, eles estavam mais inquietos do que nunca. E lá vem eu com meu pensamento filosófico, o meu modo de conceber a vida e a realidade universal. Olhar para o homem e o reconhecer como um animal indagador, desde a infância, me faz ficar ali parada em pé olhando meus alunos, esperando suas perguntas, eles esperam de mim a razão de ser das coisas. E minha sabedoria é manifestada através de um provérbio 'é melhor ficar vermelho um dia do que amarelo a vida inteira'.Ter a razão nunca foi uma tarefa fácil.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Sôfrego
Como um leão sem rebanho
Menina distante vai catar a infância
Minha terra é onde o rio corrente me espera
Sozinha, água, água nos cabelos
Molhar de eternidade o usado peito
Tatear a vida, como ela me apalpa
E o mundo não manda em nada
Tem olhos já cegos
E se antes só via, agora pego
Lançando os dados na agonia
Não, eu não desisto
Carrego o que tenho sobre os ombros
Prefiro que a alma pague
O que ela mesmo deve ao mundo
O juízo nunca saberá de tudo
Só eu sei o que é ir realmente pro-fundo.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Gira-sol
Banhada em lágrimas, depois de ter chorado toda água de sua mágoa. Sentou na porta de casa. O sol tinha voltado. As crianças corriam novamente nas ruas procurando as pipas caídas do céu, para lá dos campos amarelos de girassóis.
Essa mulher hoje vive a margem do rio e em sua casa existem molduras em forma de coração, do seu jardim sobe um aroma de jasmim, um cheiro limpo e embriagador.
Todos os dias ela inclina a cabeça suavemente, cravada nas montanhas, vendo desaparecer as últimas luzes da tarde. – Até onde chegam os olhos? E assim segue, depois, a vida.
Faz amor a intempérie. Onde ela estava sentada, ficou a terra toda regada de prazer, que até o sol e a lua morreram de vergonha.
Essa mulher hoje vive a margem do rio e em sua casa existem molduras em forma de coração, do seu jardim sobe um aroma de jasmim, um cheiro limpo e embriagador.
Todos os dias ela inclina a cabeça suavemente, cravada nas montanhas, vendo desaparecer as últimas luzes da tarde. – Até onde chegam os olhos? E assim segue, depois, a vida.
Faz amor a intempérie. Onde ela estava sentada, ficou a terra toda regada de prazer, que até o sol e a lua morreram de vergonha.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Paixões cruas

A noite tinha chegado. Havia a luz acesa da vela no escuro do quarto. Eu estava fixamente olhando a parede, observando seu vazio. Tenho me aproveitado muito desses momentos, absorvida na leitura de um pequeno livro – Meu pé de laranja lima – um romance juvenil. É sábado à noite, e essa leitura era a única coisa que me instigava. Bem nesse momento, abro o velho caderno de anotações e mais uma tarefa complexa foi me dada: descrever as sensações, os pensamentos e as ações.
Estava docilmente sentada em minha cama. E me encontrei na mesma posição 2 horas depois. Queixando-me de alguém, de mim mesma, por não enfrentar meus argumentos de longas campanhas.
Quando eu era criança, conheci um garoto mais velho. E, como era bonito, decidi conquistá-lo. Bem, ele não me quis! Pedi ao motorista para parar no começo da minha rua, e andei pela aléia que se estendia até o sítio onde eu morava. Passei 2 dias muda dentro de casa, sem conseguir falar com ninguém. Vale a pena observar, que muitas vezes acontecia, quase constantemente, eu tinha uma forte tendência a solidão, quando percebia alguma ausência na região do coração.
Na minha trajetória enquanto Geógrafa sempre procurei entender o conceito de Região, num contexto onde, ao mesmo tempo em que ocorre o fortalecimento de decisões em escala planetária, paradoxalmente a região é baseada na sua singularidade, o que assegura seus aspectos tradicionais. Contextualizando meu coração, as regiões que o abrange são: região singular, região de vivência, região da insensatez e região como classe de áreas. Essa análise apóia-se no positivismo lógico e na dedução.
Já era madrugada de domingo. A vela tinha derretido, sua cera ainda estava um pouco quente, formando um desenho estranho no chão do quarto. Virei as costas, acendendo a luminária logo na minha frente. Ouvi em torno de três batidinhas na porta do meu quarto, rápidas e leves. Logo depois uma voz suave e cansada. Era a voz de minha mãe. Ela sempre acordava pedindo para eu ir dormir. Mamãe nasceu na roça. Mas sempre teve medo de cobra, preferia passear na cidade, invés de ver o sol descer em cima de alguma árvore. Eu tenho a esperança lá longe que com o tempo melhore um pouco.
Às vezes eu me sinto uma intrusa entre os seres humanos. Passo noites em claro pensando na sociedade e sua relação com a natureza. Para Kant a natureza interior dos seres humanos compreendia suas paixões cruas, enquanto a natureza exterior era o ambiente social e físico no qual os seres humanos viviam. O homem exerce seu domínio sobre a natureza através das artes mecânicas. Seu comportamento é absolutamente os aspectos ditos externos da natureza, o que nos conduz a subordinação ao capitalismo industrial de modo significativo. Assim como percebo na voz de mamãe. Uma alteração gradativa ao passar dos anos. Será que ela pensa na oposição homem-natureza, espírito-matéria, sujeito-objeto? Onde estão suas paixões cruas?
Eu nunca fui capaz de entender os sentidos das ordens. Eu possuo um rosto teimoso, mas quase sempre tenho uma voz meiga.
- E o que dizia eu?
Olho para baixo, minha barriga mexe, não é fome, é vida! Fico encabulada. É uma sensação absolutamente maravilhosa. Estou sem saber por onde começar o ofício da maternidade. Os meus seios são onipresentes como Deus.
O sol começa a entrar lentamente sobre o telhado, o vento é frio, e só me resta procurar refúgio no território da minha cama, gozando do privilégio do agasalho.
domingo, 29 de maio de 2011
Só
Na vida quem perde o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de soluço em soluço esperar
O sol que sobe na cama
...E acende o lençol
Só lhe chamando
Solicitando
Tom Zé
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de soluço em soluço esperar
O sol que sobe na cama
...E acende o lençol
Só lhe chamando
Solicitando
Tom Zé
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Canção de mim mesmo
EU CELEBRO a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.
Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade
observando uma lâmina de grama do verão.
Casas e quartos se enchem de perfumes
as estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
mas não deixo.
A atmosfera não é nenhum perfume
não tem gosto de destilação
é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre
estou apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.
A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros... raiz
de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração
a batida do meu coração passagem de sangue e
ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
da praia e das rochas marinhas de cores
escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz
palavras disparadas nos redemoinhos do vento,
Uns beijos de leve... alguns agarros... o
afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar... apito do meio-dia
a canção de mim mesmo se erguendo
da cama e cruzando com o sol.
Uma criança disse, O que é a relva?
trazendo um tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?
- sei tanto quanto ela o que é a relva.
Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
por querer,
Com o nome do dono bordado num canto,
pra que possamos ver e examinar, e dizer
É seu ?
O blablablá das ruas... rodas de carros e o
baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
interrogativo, o tinir das ferraduras dos
cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
berradas e guerras de bolas de neve;
Os gritos de urra aos preferidos do povo
o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
doente a caminho do hospital,
O conto de inimigos, súbito insulto,
socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
apressado forçando passagem até o centro
da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
tantos ecos,
As almas se movendo... será que são invisíveis
enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
esmorecem e desmaiam de insolação
ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui
quantos uivos reprimidos pelo decoro,
Prisões de criminosos, truques, propostas
indecentes, consentimentos, rejeições de
lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias
estou sempre chegando.
Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.
Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
estes, traduzo numa nova língua.
Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos homens.
Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
confortáveis e um cajado arrancado do mato;
Nenhum amigo fica confortável em minha cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
continentes, e a estrada pública.
Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.
Não é tão longe assim... está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
água e sobre a terra.
Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
livres no caminho.
Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.
Walt Whitman
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.
Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade
observando uma lâmina de grama do verão.
Casas e quartos se enchem de perfumes
as estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
mas não deixo.
A atmosfera não é nenhum perfume
não tem gosto de destilação
é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre
estou apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.
A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros... raiz
de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração
a batida do meu coração passagem de sangue e
ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
da praia e das rochas marinhas de cores
escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz
palavras disparadas nos redemoinhos do vento,
Uns beijos de leve... alguns agarros... o
afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar... apito do meio-dia
a canção de mim mesmo se erguendo
da cama e cruzando com o sol.
Uma criança disse, O que é a relva?
trazendo um tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?
- sei tanto quanto ela o que é a relva.
Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
por querer,
Com o nome do dono bordado num canto,
pra que possamos ver e examinar, e dizer
É seu ?
O blablablá das ruas... rodas de carros e o
baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
interrogativo, o tinir das ferraduras dos
cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
berradas e guerras de bolas de neve;
Os gritos de urra aos preferidos do povo
o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
doente a caminho do hospital,
O conto de inimigos, súbito insulto,
socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
apressado forçando passagem até o centro
da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
tantos ecos,
As almas se movendo... será que são invisíveis
enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
esmorecem e desmaiam de insolação
ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui
quantos uivos reprimidos pelo decoro,
Prisões de criminosos, truques, propostas
indecentes, consentimentos, rejeições de
lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias
estou sempre chegando.
Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.
Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
estes, traduzo numa nova língua.
Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos homens.
Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
confortáveis e um cajado arrancado do mato;
Nenhum amigo fica confortável em minha cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
continentes, e a estrada pública.
Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.
Não é tão longe assim... está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
água e sobre a terra.
Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
livres no caminho.
Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.
Walt Whitman
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