A moça detestava ser obrigada a lhe pedir (ele muitas vezes dirigia durante horas,sem interrupção) que parasse diante de um arvoredo. Ela sempre se irritava com a surpresa fingida com que ele lhe pergutanva por quê. Ela sabia que seu pudor era ridículo e fora de moda. Ela sempre enrubescia por antecipação diante da idéia que iria enrubescer. Muitas vezes desejava sentir-se livre, despreocupada, à vontade em seu próprio corpo, como sabia que era a maioria das mulheres com quem convivia. Até mesmo inventara, para seu uso próprio, um método original de autopersuasão: repetia para si mesma que todo ser humano recebe ao nascer um corpo entre milhões de outros corpos prontos para o uso, como se lhe fosse atribuída morada semelhante a milhões de outras num imenso prédio; que o corpo é, portanto, uma coisa fortuita e impessoal, nada mais do que um artigo de empréstimo e de confecção. Eis o que repetia para si mesma com todas as variações possíveis, tentando inutilmente inculcar em si essa maneira de sentir. Esse dualismo da alma e do corpo lhe era estranho. Ela se confundia muito com seu corpo para não senti-lo com angústia.
Risíveis Amores, escrito entre 1960 e 1968
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Amargura
O que sinto são proposições obscuras
Proporção entre as partes de um todo
Saber que a desgraça
É um ensaio funesto
Onde escurecer-se e anuviar-se fazem parte
Sentir na boca o absinto, o fel...
Sentar sobre um sofá amarelinho
Pálido, descorado, contrafeito
Refletir o riso amarelo
Satirizar
Censurar certo vícios
Preceitos de uma herança moral
Enquanto a vida
Esse estado de atividade incessante
Corre solta
Tempo que decorre
Entre o nascimento e a morte
Esse intervalo
Distância que separa dois sons
Deixam-nos sempre no limite
Consistir unicamente em não passar de restringir-se
Proporção entre as partes de um todo
Saber que a desgraça
É um ensaio funesto
Onde escurecer-se e anuviar-se fazem parte
Sentir na boca o absinto, o fel...
Sentar sobre um sofá amarelinho
Pálido, descorado, contrafeito
Refletir o riso amarelo
Satirizar
Censurar certo vícios
Preceitos de uma herança moral
Enquanto a vida
Esse estado de atividade incessante
Corre solta
Tempo que decorre
Entre o nascimento e a morte
Esse intervalo
Distância que separa dois sons
Deixam-nos sempre no limite
Consistir unicamente em não passar de restringir-se
terça-feira, 24 de maio de 2011
Ornato
O amor não tem hora para chegar
Ele simplesmente desponta
Puro, sem misturas
Sem ornato
Não múltiplo, nem duplo.
É único, exclusivo, só
Aparece para viver modestamente
sem luxo
Apresenta-se ingênuo e crédulo
Diz-se dos tempos verbais
conjugado sem auxiliar
Diz-se do período de uma só oração
Designativo de flor e sua ordem de pétalas
O amor não tem hora para chegar
Chega sem indícios, sem vestígios
ou marcas de pé, manchas na pele
letreiros ou rótulos.
Tiradentes
Hoje eu lembrei de você meu pai
E há um grande silêncio na morte
O frio ao coração lhe atormenta
Seu canto de morte, que mudo fuzila
Hoje pensei em seu colo meu pai
No desconcerto de suas mãos
No rio que a gente via crescer depois da chuva
Hoje lembrei da sua voz meu pai
Dizendo: tem rosto crestado
do sol do deserto e da luz do luar
Hoje eu lembrei de você meu pai
De como eu era
E há um grande silêncio na morte.
Escrita

As palavras escrevem a vida
E a virgula é a respiração de cada frase
Escrevo porque meu ser se encontra em prosa
E nessas frases que edifico
Ora sou alegre, ora triste.
Mergulho em coisas passageiras
no entanto delas é que tiro
o meu sustento, as vezes tormento
Mas reconheço o meu traço
como um corpo de água
intermitente ou sazonal
— não sei, não sei.
Córrego ou riacho
Esta é a minha vida:
Tudo e nada
Frente e verso
sábado, 30 de abril de 2011
Abril despedaçado.
eu tampo meus ouvidos
eu calo minha boca
eu silencio meu grito
eu reprimo meus instintos
eu troco de cor
eu corto os cabelos
eu perco o sapato
eu rasgo o vestido
eu faço tudo ao contrário
menos o contrário ao meu coração
se não eu o arrancaria
e seguiria sem ele....
eu calo minha boca
eu silencio meu grito
eu reprimo meus instintos
eu troco de cor
eu corto os cabelos
eu perco o sapato
eu rasgo o vestido
eu faço tudo ao contrário
menos o contrário ao meu coração
se não eu o arrancaria
e seguiria sem ele....
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